O sonho havia acabado, e foi duro acordar dele e deparar com um mundo, onde o jovem sequer tinha o que sonhar. Este foi o mundo mostrado tão magnificamente pela sétima arte, por Kubrick, em A Laranja Mecânica. Que soco, que podre, que horror, era preciso correr, tudo ficou dark, punk e skinhead, e de repente, sem submarino.
Punk foi o movimento de estilo jovem, que nasceu em 1977, em Londres. A palavra significa podridão, sujeira, insanidade. O movimento levantou a bandeira da desilusão, sendo seu lema: No future. Surgiu durante a crise econômica inglesa da década de 70, com o desemprego e as novas formas de pobreza. Existe até hoje e é movimento típico de países ricos que não abrem espaço para absorver a jovem mão-de-obra com pouca escolaridade e baixo nível tecnológico.
Para os roqueiros, os Beatles, com seus ternos de veludo e peito rendado, queriam parecer doces e pacíficos. Os Rolling Stones eram a imagem da violência e dos que se opunham, por princípio, a tudo; eram jovens de Blusão Negro e camisa fosforescente, que promoviam quebra-quebra. A comunidade dos Blusões Negros era o símbolo da união dos grupos de jovens e representava a vida em bando, nos grandes centros urbanos.
Bollon (1993) lembra que o uso dos casacos negros de couro significava que seu usuário, com ele ,defendia o próprio couro como se defende a própria vida. Não se pode roubar um couro, pode-se recuperar ou tirar, arranjar ou despojar de alguém que não esteja usando ou não saiba se defender. Sob esta roupa se esconde uma ideologia, a da solidariedade e do reconhecimento no seio do bando e sinaliza, publicamente, para a representação da violência e da agressividade, que tanto pode ser pública como privada, guardada para usar no universo fetichista da sexualidade Perv. É deste universo agressivo que brota o mundo Punk.

Este grupo adotou um traje anárquico, louco, desesperado e rasgado e destruído. O vestuário Punk era um traje-cenário: botas de couro, correntes e tatuagem. O couro é o material nobre para o vestuário deste grupo. Como a pele é o couro de cada um, assim como se estampa um tecido ou camiseta, a própria pele que deve ser estampada em forma de tatuagem; é na pele que se sofre, onde estão os hematomas, por isso, a roupa-pele é rasgada: o hematoma da roupa. A agressividade do grupo é extensiva ao corpo de cada membro dele.
A grande revolta dos punks é a falta de oportunidade de inserção no universo social de classe média, gerada pela dificuldade de inserção no mercado de trabalho, isto é, o desemprego.
Consideram que roupa não é ideologia e que não andariam com um “pala boa” porque é traje de gente que ganha dinheiro sem esforço.
Desde o seu começo, o rock tem fomentado impactos, choques, modas, estilos, comportamentos, políticas, revoluções, idéias de declínio e guinada, além de música e dança. Para suas guinadas, o rock conta sempre com a energia dos adolescentes. Basta uma geração ter completado sua missão ou ter dado seu recado, para que outra reação surja com outra proposta.
Uma das grandes guinadas do rock aconteceu em 76, com o movimento punk. Depois de passado o impacto inicial, com a imagem mais desagradável de toda a história popular universal e sob apavoradas pressões de todos, sucumbiu ao peso da própria audácia, mas não morreu. (?)
Vistos como marginais, drogados, sadomasoquistas, assaltantes mirins, travestis, prostitutos adolescentes, sonhadores entre outras merdas mais (maldito mainstream!). Se o mundo do adulto é confuso, não se pode cobrar coerência política do mundo punk, mesmo porque se trata de um movimento de revolta do adolescente, insatisfeito com tudo. Invocam o espírito de mudança. Não é só uma cultura visual ou musical, é também uma crítica e um ataque frontal a uma sociedade exploradora, estagnada e extravagante nos seus próprios vícios.
Mais revolução de estilo, que movimento político, mais sentimento que consciência, o movimento tem, como primeira regra, que não existe regra, ser punk é quebrar regras e não criá-las, é não se preocupar em usar a roupa certa ou dizer os clichês certos, é pensar e se expressar por si, e em grupo, é claro.
Depois de Elvis e dos Beatles, não existiu nada mais contestador, anárquico e subversivo dentro do rock. Existe uma briga pela paternidade do estilo entre americanos e ingleses. Na verdade o movimento nasceu nos Estados Unidos, inspirado nas bandas MC%, Stooges e Velvet Underground. (?)
Em vez da paz e do amor pregados pelos movimentos hippies, essas bandas incendiavam Nova Iorque com um estilo forte, contagiante e sem padrão préestabelecido. Em 1974, a casa noturna nova-iorquina CBGB abria suas portas e por lá passaram Ramones, Patti Smith, The Pretenders. A cena americana era mais musical do que comportamental, não chegou a influenciar a moda ou a quebrar os padrões da sociedade conservadora, era apenas um novo estilo musical, que estava sendo criado, aparentemente, sem que as pessoas percebessem.
Na Inglaterra, o estilo chegou no final do ano seguinte. Milhares de desempregados perambulavam pela periferia londrina sem ter o que fazer; costumavam se reunir numa loja de produtos sadomasoquistas, chamada Let it Rock, de propriedade do empresário Malcom McLaren. Correntes, couro, pregos e outros produtos usados por casais, dentro de quatro paredes, acabaram inspirando a moda punk. (que maravilha, isso ajuda em muito o preconceito atual!)
Falta de perspectiva profissional, desemprego, injustiça social, tudo era um prato cheio para criar um novo estilo, mas faltava algo para o gênero estourar. McLarem, depois de uma ida a Nova Iorque, a negócios, voltou encantado com o que viu. Steve Jones e Glen Matlock, freqüentadores da loja, haviam assistido ao show dos Ramones na Inglaterra, no final de 75, e chamaram o amigo Paul Cook para assumir a bateria. Conseguiram também um vocalista feio, com dentes estragados, que não sabia cantar e usava uma camiseta com os dizeres I Hate Pink Floyd (eu odeio Pink Floyd) e o Sex Pistol estava formado.

A banda mexeu com todos os padrões conservadores ingleses. Apareciam bêbados ou drogados em público, xingavam a rainha em frente das câmeras de tv, pregavam o caos e a anarquia nas letras. Na cola dos Pistols, vieram The Clash, Vibrators, Sham 69, UK Subs. Cuspir nos ídolos durante os shows tornou-se um fato curioso e freqüente da platéia punk. Uma explicação para isso é que as bandas que faziam sucesso nos anos 60/70 acabaram virando uma espécie de semideuses. As pessoas não podiam chegar perto dos popstars. Com os grupos punk era diferente, quem estava encima do palco era um jovem igual aos que estavam na platéia.
Na década de 80, o estilo começou a perder força no mundo inteiro. O choque da contestação já havia sido assimilado pelas pessoas, e os punks de butique começaram a surgir. Alguns grupos que tentavam manter o espírito vivo, pregavam o seu não fim com o slogan punk’s not dead. Nos anos 90, uma nova geração de punk acabou surgindo, sem a mesma ideologia, sem o mesmo espírito de desordem, mas com as mesmas raízes, dentro de três acordes.
O Straight Edg
O cenário punk abriga diferentes comunidades. Monteiro (1999) fala da comunidade SXE que surgiu num momento em que, a cena punk, segundo eles, estava intoxicada, estúpida, contraditória, presa num pensamento do tipo o “mundo estava acabado, não há futuro”. O Straight Edg, ou SXE é um movimento de protesto contra todo esse negativismo, uma alternativa para aqueles que estavam dormindo em cima do próprio vômito.
Por causa do X, tatuado nas mãos, as bandas SXE, inicialmente, eram chamadas de fascistas onde tocavam. Porém, a maioria dos seguidores do estilo SXE não se interessa por nada que aconteça fora de sua comunidade, pelas coisas que afetam a vida das pessoas comuns. Suas bandas ignoram temas políticos e preferem escrever sobre temas infantis, relações amorosas, conflitos pessoais e amizades que se perdem e fazem debandar os membros da tribo.
Líderes de bandas SXE afirmam que o movimento ainda pode ser uma saída para uma juventude fraca, que celebra o uso das drogas como forma de rebeldia, podendo mudar a vida de muitas pessoas.
Para eles, não se pode deixar que algo tão bom passe a imagem de bondade e pureza só dentro de uma comunidade, existindo milhares do pessoas livres de vício, que se esforçam para que existam mudanças que não ficam em casa ouvindo um Cd de uma banda de moleques, que voltarão a beber assim que terminarem o colegial ou tiverem que encarar o primeiro problema que surgir nas suas vidas.
Um SXE hardcore se define como pessoa que busca se livrar de todo tipo de vício adquirido na sociedade atual, como drogas, álcool, cigarros, hipocrisias. Acreditam que o mundo pode mudar com pequenos gestos de solidariedade e altruísmo, transformando-se em um lugar, onde seres humanos possam desfrutar do prazer integral da natureza.
Os SXE vestem-se com roupas de matéria que venha das plantas, que sejam confortáveis e simples, para não serem notados pela sociedade consumista, porque acreditam que não há necessidade de vestir roupa de grife para ser feliz. Não vestem roupas de couro de animais. Não andariam com gente que veste roupa de couro e que usa roupa que dá status.
Têm como lema: se você não quer ser parte do problema, seja parte da solução; antes de mudar o mundo mude você mesmo, combatendo mitos que valorizam o individual, incentivando a ação coletiva e pensando na natureza como conjunto. Dizem–se apolíticos, porém acreditam que é tarefa do homem lutar contra o capitalismo, fora das atitudes individuais; acreditam na necessidade de educar e mobilizar a classe trabalhadora; lutam contra aborto, pelo direito à vida. Pro Life é o nome de seu movimento religioso.
Propõem uma nova ética: as vidas dos animais são só deles e devem ser respeitadas; têm também como lema rejeitar a falsidade antropocêntrica, que mantém a hierarquia opressiva da humanidade sobre os animais: é hora de libertá-los.
Em 1999, (Monteiro:183) quando pesquisava os movimentos de moda que repudiavam o uso do couro, falou com uma vocalista de uma banda SXE que lhe disse:
Na fábrica, na fazenda e no laboratório: laticínios, ovos e carnes, camurça, lã e couro são os produtos finais da tortura, confinamento e assassinato, renunciando seu uso em reverencia a toda vida inocente. O direito da vida selvagem de viver em paz, em seu ambiente natural sem, interferência dessa civilização, não pode mais ser negado.
Para eles, tornar uma cultura digna de ser chamada civilizada exige que se acabe com a crueldade. O veganismo é a essência da compaixão a da vida pacífica. O SXE é uma militância política, que combate todas as formas de exploração, um caminho para a mudança coletiva através da mudança individual. Acredita que, para a formação de uma sociedade justa, as pessoas devem se abster de intoxicantes e de produtos animais.

Ray, vocalista da banda Shelther, falou, em entrevista, para a revista Leberation, em janeiro de 1997, usada com referência pelo grupo, e também, por Monteiro (1999),…Meu Deus! Esse mundo é um lugar ferrado! Temos que fazer algo! Enquanto isso outras pessoas ficaram vendo tv, jogando futebol”. Colocou que o pessoal da cena punk estava muito consciente de que o mundo estava desmoronando e que era preciso fazer alguma coisa: “punk” deve significar reformas e melhorias, deve ver o que está errado e tentar consertar. Diz que quando bandas só falam de namoradas e de coisas estúpidas, mesmo que tenham cabelos vermelhos ou moicanos, parecem-se, mas não são punks, são “mainstream” e perdem a identidade para encontrar abrigo. Temos que encontrar abrigo em algo que não nos iluda, podemos nos fantasiar de “rap” ou “rave” para ir a uma festa, mas não encontraremos guarida.
Essa entrevista tornou-se como hino do veganista, e foi citada infinitas vezes por eles para lembrar que Day diz ser favorável à comunicação (as mídias) porque quer ver as pessoas unidas e que elas, ao invés de condenar, devem-se encorajar a garotada para que sejam sinceros e desprendidos do mundo materialista. Fala do poder da música e aconselha o jovem que quer ser músico. É preciso saber usar a posição de liderança de uma banda, aproveitando a oportunidade para passar, através de suas letras, temas que possam encorajar as pessoas de maneira positiva.
Para ele a mensagem de uma banda afetará a vida de outras pessoas e, antes de formar uma banda e escrever letras, antes de se tornar professor e instruir as pessoas de algum modo, o jovem deve se tornar uma pessoa pura; essa é a coisa mais importante para um músico, que, principalmente, deve ter um estilo de vida honesto e, depois, pode tentar mudar a vida das outras pessoas.
Fonte: Fashion Bubbles
Por Queila Ferraz Monteiro (com alguns comentários meus)
Posted by the girl